FRATERNIDADE ROSACRUZ  in LUSITANIA

Lusitano Centro Rosacruz Max Heindel

Autorizado por The Rosicrucian Fellowship

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Mente Sã,  Coração Nobre e Corpo Puro

 

 
 

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REENCARNAÇÃO E CASOS DE RENASCIMENTO

 

General Tomás George Conceição e Silva

 

Formato PDF

VIDEOS DE UM CASO REAL DE RENASCIMENTO:

 1. http://www.youtube.com/watch?v=2-FsSUIdVM8&feature=related

2. http://www.youtube.com/watch?v=jxDEWiPgKjc&feature=related

                             

Luis Portela um homem da ciência que acredita na reencarnação.

Entrevista à Revista do Jornal Expresso em 15 de Junho de 2013

(formato PDF)

 

VIDEOS DE UM CASO REAL DE RENASCIMENTO:

 1. http://www.youtube.com/watch?v=2-FsSUIdVM8&feature=related

2. http://www.youtube.com/watch?v=jxDEWiPgKjc&feature=related

 

O Renascimento nas Escrituras Sagradas

I

Desde o primeiro livro da Bíblia – o Génesis – ao último – o Apocalipse – sempre se fala da eternidade espiritual e do RENASCIMENTO, fazendo-se nítida separação entre o que pertence ao domínio terreno e ao Celeste. E sempre se recorda ao Homem que a sua forma terrena é feita do pó, e que fatalmente voltará ao pó da terra: "tu és pó, e ao pó voltarás"1 e lembra-se-lhe que, por haver tomado um corpo terreno ele fica sujeito às leis terrenas, mas tem de buscar, novamente, a sua elevação ao Divino, de que se afastou. E que a sua busca se fará pela via crucis do esforço, da luta, do trabalho e do sofrimento – "com o suor do teu rosto comerás o teu pão, até que voltes à terra, porque dela foste tomado"2.

Neste versículo o autor refere-se apenas ao Homem físico, ao corpo feito de terra, mas não à essência que anima, que dá vida e inteligência à forma terrena que tem o Homem.

"E disse Deus: façamos o Homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança"3. O que significa isto, se não que Deus, sendo ETERNO, CRIOU o Homem eterno também?

"E criou Deus o Homem à sua imagem; à imagem de DEUS o criou a ele"4. Ora, sendo Deus o Supremo Criador, e criando em Suprema Perfeição, ELE comunicou ao Homem o poder de criar também, e assim como Deus não morre, nem possui forma física, assim também o EGO ou ESPÍRITO não é feito do pó da terra, mas veste um corpo terreno, para com ele criar outros corpos e assim lutar, sofrer, criar meios, acumular energias que possam elevá-lo a mais altas condições, do que são as terrenas.

"E formou o Senhor Deus ao Homem do pó da terra, e soprou no seu nariz o fôlego da vida: e fez-se o Homem alma vivente"5. Isto quer dizer que Deus fez a forma física e depois de feita fez entrar nela o Espírito, para que lhe desse a vida e a inteligência, porque o verdadeiro Homem não é constituído por carne e ossos, mas pelo EU, o Espírito ou EGO, e este é de natureza divina, eterna, e por esse motivo não morre. O que morre é a forma física, o corpo. E ainda mesmo este não morre, apenas se transforma, porque no próprio fenómeno da decomposição da forma física nós vemos palpitar a vida, e isto nos garante que a morte nada mais pode ser do que a transformação da vida. Quando o espírito abandona a sua forma física, logo esta começa a decompor-se e a sua maior parte passa ao estado gasoso, escapando-se da terra para o espaço, onde se dissolve no ar, para novamente voltar a incorporar-se noutros corpos, das plantas, dos animais, e nos dos seres humanos, porque nós vivemos num verdadeiro oceano de vida! E por esta razão os cadáveres não devem ser encerrados em túmulos de chumbo, nem mumificados, mas simplesmente depositados na terra, ou então, passados três dias e meio sobre a morte natural, queimá-los.

Desde que o Homem começou a entregar-se aos vícios, guiado pelos animalescos instintos, a vida tornou-se mais severa e dura. E por este motivo caímos na mais profunda materialidade, de que pretendemos libertar-nos agora, que tornamos consciência do que fomos e do que temos que ser.

Deus, o Supremo Arquitecto do Universo, não criou o Homem para a imperfeição, mas para a Perfeição. E por mais que o Homem se afaste do recto caminho, ele voltará, tarde ou cedo, à Perfeição, porque, tal como ninguém se pode levantar sem primeiramente haver caído, assim também é necessário descer primeiro às condições terrenas, vis, para depois, através do cadinho do sofrimento, voltar a subir ao Divino. E assim, morrendo e renascendo, é que nós buscamos perfeição e a encontraremos.

Vem de muito longe a luta contra a vaidade e o orgulho que dominam os seres humanos, e que tanto os inferioriza!

Para dar combate a esta grave enfermidade psíquica foi escrito um dos mais interessantes livros da Bíblia – o Eclesiastes –, no qual se compara a efémera duração dos corpos dos seres humanos e dos animais, dando uns e outros como coisas vazias, impróprias da importância que se lhes dá. E desta maneira se recorda aos humanos a conveniência de se diferençarem dos animais pela nobreza de atitudes e actos. Ali se afirma que a mesma sorte que tem a besta, essa mesma espera o Homem; e que ambos possuem o mesmo fôlego ou espírito, sendo uns e outros vaidade, quer dizer vacuidade, ausência de valor real.

E na verdade, as formas corporais, dos seres humanos ou dos animais, faltando-lhes o "fôlego" divino ou espírito, são inertes, simples matéria em decomposição, vazia de essência divina ou vida, e ambos, Homem e Besta, vão para o mesmo lugar – a decomposição, o vácuo, no qual os elementos se desagregam e se dispersam para novamente serem captados por outros corpos, que os incorporam em si mesmos. Isto nos mostra a eternidade da vida, e que o Homem e os animais, "ambos foram feitos de pó, e ambos voltam ao pó".

E quem descobre que o fôlego ou espírito dos homens, ao morrer a sua forma física sobe para o espaço, e o fôlego ou espírito das bestas desce para debaixo da terra?6.

Aqui vemos a destrinça entre corpo e espírito muito bem feita! O que pertence à terra volta à terra; o que pertence ao divino volta ao divino; o que já atingiu um alto grau evolutivo sobe para o espaço: o que não se graduou na escala evolutiva até ao grau humano desce para debaixo da terra, e num ou noutro estado aguarda uma nova oportunidade para voltar à vida terrena, a forma física, feita do pó da terra. E o sábio pregador continua no castigo da vaidade e do orgulho que tanto ensoberbessem e torna duros os seres humanos. E vi que não há cousa melhor, do que alegrar-se o Homem nas suas obras, visto que essa alegria é a sua porção, a sua recompensa das boas obras, o seu tesouro eterno, por ser possuído nesta vida terrena e depois dela.

E aconselha ao Homem a prudência, neste estilo simples: ..."quem o levará a ver satisfeito o que há-de suceder depois dele?" – quer dizer: depois de finada a sua forma física, o seu corpo de carne e ossos, que nada mais é do que pó.

Certas correntes de pensamento religioso pretendem filiar nas afirmações do Eclesiastes a sua crença no aniquilamento total do ser humano quando morre. E por essa errada interpretação afirmam: "Quem vai desta vida não volta mais!".

E por esta razão vestem de preto, quando morrem os seus parentes, porque o negro é a negação da cor, e serve também para negar a vida. Mas pelo exame que fizemos, vimos nas mal compreendidas passagens do Eclesiastes, que não é assim, e que ali se faz claramente a destrinça entre o que é divino, e se chama "fôlego", e o que é terreno e se chama Homem, corpo; e ali se indica o destino dos espíritos, após a morte dos corpos: os dos humanos sobem para o espaço, para o éter; e os dos animais, pelo seu grande atraso na evolução, descem para debaixo da terra.

Se a morte fosse a destruição total destas maravilhas que são os nossos corpos, como encararíamos a obra divina do Supremo Criador? Não seria ela uma futilidade? Um trabalho inteiramente inglório saído das próprias mãos do Glorioso? Mas, quando olhamos em redor de nós, para cima e para baixo, fica-nos alguma dúvida a respeito da Perfeição da obra do Divino Criador?

O Supremo Arquitecto do Universo não cria futilidades nem imperfeições! O Homem, sim! Deus cria na mais pura beleza e Perfeição, e toda a sua obra se destina à maior glória – a da ETERNIDADE.

O Homem cria imperfeitamente, porque a sua obra é incompleta como ele. Mas através do renascimento nós vamos alcançando, gradualmente, a PERFEIÇÃO. E como vamos ter oportunidade de verificar, através dos textos sagrados há muitas alusões à maravilhosa LEI DO RENASCIMENTO, graças à qual, de vida em vida vamos aperfeiçoando a nossa forma física, este complicado e delicadíssimo corpo que nos textos se chama o Homem feito do pó da terra, e ao mesmo tempo nos graduamos espiritualmente para mais altas condições, libertando-nos das leis terrenas.

Todos quantos deixam a vida terrena voltam novamente a ela! E só assim nós podemos encontrar plena justificação para as profundas diferenças de sorte que notamos de uns para os outros. Nasce-se cego, aleijado, rico, pobre, inteligente, imbecil; algoz ou vítima; feliz ou infeliz; para mandar ou para ser mandado; para subir às culminâncias do poder e da abundância ou para ser descido dela; nobre ou plebeu; para crescer sem dificuldades ou para vegetar dificilmente. E porquê, todas estas diferenças? Será Deus capaz de sentir felicidade criando nestas condições? Não! O mistério repousa na pesada e negra cortina que se fecha sobre o nosso tenebroso passado, quando tornamos, de novo, um corpo terreno, ao nascer, ou melhor ao RENASCER. Tudo esquecemos! Mas a grande verdade é que todos os nossos actos esperam por nós, tecem os nossos destinos futuros! O nosso porvir depende do nosso passado e do nosso presente. Em cada vida nós recolhemos os frutos do que semeámos noutras, e assim os nossos destinos estarão, sempre, em perfeita harmonia com o que fizemos, com os nossos procedimentos em vidas passadas.

Enquanto tivermos culpas a resgatar nós RENASCEREMOS sempre, até atingirmos a PERFEIÇÃO máxima.

 

Francisco Marques Rodrigues

 

1, 2 Génesis, 3, 19; 
3, 4 Génesis, 1, 26-27; 
5 Génesis, 2, 7; 
6 Eclesiastes, 3, 19 a 22. 

 

FONTE: http://revista-rosacruz.planetaclix.pt/tema/bibl/renasci.htm

O Renascimento nas Escrituras Sagradas

II

A mãe de Samuel, na sua fervorosa e consciente acção de graças ao Senhor, por lhe haver dado um filho que durante muitos anos desejou de todo o seu coração, fez confissões várias reconhecendo e reverenciando a grandeza e a magnanimidade do Eterno, a sua imensa e inigualável Sabedoria. E durante a sua longa oração, reconheceu que todo o seu sofrimento por não lhe haver sido concedida a ventura de ser mãe, era devido à Lei de Causa e Efeito, que nos força a Renascer sucessivamente, até que sejamos perfeitos.

Ana emprega outras palavras para dizer a mesma cousa que nós dissemos. Mas nós vamos trasladar para aqui algumas das suas clarividentes afirmações, para que os nossos leitores as possam apreciar.

"O Senhor É Deus de conhecimento; e por ele" – o conhecimento – "se ponderam as obras" – de cada um de nós.

"O arco dos varões" – dos guerreiros – "se quebrou; e os que tropeçavam cingiram" – recobraram – "a força" – voltaram à ofensiva.

"Os fartos alugaram-se para terem pão"; quer dizer que os ricos que não fazem uso cristão da sua riqueza, quando voltarem a Renascer virão pobres e terão a necessidade de se alugarem, de se colocarem ao serviço e ordens de outros ricos ou detentores de poder, para obterem o seu sustento. Desta maneira se confirma o antigo adágio: Não há fartura que não vá dar em fome! "E cessarão os famintos", o que significa: depois das lições, bem aprendidas, todos se comportarão por forma que o erro não se repita; os detentores da riqueza e do poder serão equânimes e o espírito cristão dominará os corações e os cérebros dos seres humanos, dando assim uma nova Humanidade, mais perfeita e justa.

"O Senhor Mata, E Guarda Em Vida; Faz Descer À Sepultura, E Faz Subir Dela".

Neste passo, a Lei do Renascimento é reconhecida sem rodeios! Deus Mata a forma que temos, criada à custa dos quatro elementos, e assim a nossa carne se dissolve, mas a vida que a vivificou e a iluminou com a inteligência, foi guardada para novamente Renascer, quando o Divino Poder o permitir. Mata a forma elaborada com o pó da terra, mas guarda a vida, o espírito, aquela parte divina que a anima e é tudo nessa forma.

"Faz descer à sepultura, e faz subir dela". Nestas palavras ressalta com a maior clareza, que a vida continua, para além da sepultura, e que novamente reaparece neste Mundo, e no qual a vida continuará até que nos tornemos capazes de compreender que todos somos irmãos, filhos do mesmo Criador, tendo as mesmas necessidades, as mesmas incertezas, os mesmos destinos, e que a grande finalidade que temos é assimilar, compreender perfeitamente a grande e divina Lei do Amor, que a todos há-de unir e elevar ao mais alto nível espiritual. A morte nada mais é do que transformação, época de exame final e preparação para novas existências, cada vez mais apuradas.

De facto, quando morremos neste mundo, Renascemos para o mundo espiritual, onde nos esperam outros seres amigos; quando Renascemos aqui, morremos para esses amigos e nascemos para os que já tinham vindo antes de nós para este mundo de incertezas e dores. E por isso mesmo o nosso grande Épico, na canção astrológica intitulada Vinde Cá, Meu Tão Certo Secretário, assim se expressa a respeito do momento do seu Renascimento.

"Quando Vim da Materna Sepultura, de Novo, Ao Mundo, logo me fizeram estrelas infelizes obrigado". Camões tinha como certa a Lei do Renascimento, e por isso não hesitou em afirmar: Quando Vim da Materna Sepultura, de Novo, Ao Mundo, quer dizer com rumo ao mundo, logo o seu destino, criado pelas suas acções em vidas passadas, se aderia a ele para o compelir às necessárias reformas de hábitos, ponto de partida para o aperfeiçoamento individual.

A mãe de Camões faleceu em consequência do parto, e por isso mesmo se pode supor que o Poeta chamou "materna sepultura" à sua própria mãe. Mas não foi assim! Nos Lusíadas, no primeiro canto, ele fala-nos da Lei da Morte, e da maneira como havemos de nos libertar dela, o que revela um conhecimento particular do problema. Ouçamo-lo:

 

"E também as memórias gloriosas
daqueles Reis que foram dilatando
a Fé, o Império, e as Terras Viciosas
de África e da Ásia andaram devastando,
e aqueles que por obras valorosas
se vão da Lei da Morte Libertando".

 

De facto, a Lei da Morte força-nos a renascer e a emendar os nossos erros, e só nos libertamos dela pela perfeição moral.

Paracelso, o famoso médico alemão e iniciado Rosacruz, esteve em Lisboa no ano de 1518, pouco antes do nascimento de Camões, o que nos indica a existência de Rosacruzes nesta cidade, por essa época, pois os matemáticos eram todos astrólogos; e na Universidade, ninguém podia matricular-se nas cadeiras de medicina propriamente dita sem apresentar diploma comprovativo de haver tido aprovação na disciplina de Astrologia! E a Astrologia é das mais antigas ciências, e sempre foi cultivada com religioso carinho pelos adeptos desta Fraternidade.

Mas, voltemos ao texto sagrado "O Senhor faz pobre e faz rico; abate e também eleva! Ele levanta o pobre do pó, e eleva o necessitado do monturo; para os fazer assentar entre os Príncipes, e para os fazer herdar o trono da glória".

Examinemos: " ... faz pobre e faz rico", quer dizer: dá a cada um de harmonia com os seus méritos, porque Os Nossos Actos Ficam Esperando Sempre Por Nós! E assim, o que numa existência soube usar da riqueza e do poder, quando Renascer continuará a possuir riqueza e poder! Mas o que fez mau uso desses privilégios, quando voltar a este mundo, nascerá no seio de famílias pobres ou o que ainda será pior, perderá a sua fortuna e o seu poder! "Ele abate e também eleva!" Isto significa que podemos ser elevados ou abatidos, de harmonia com os nossos próprios actos. "Ele levanta o pobre do pó", quer dizer que, depois de estar feita a prova da pobreza, ser-se-á libertado dessas condições duras para outras mais felizes. " ... Eleva o necessitado do monturo", das misérias a que pelos seus próprios actos desceu, ensinando-lhe as virtudes apostas ao vício, e assim aumentando o seu valor, a sua energia espiritual para as lutas que se travam com os instintos e vilezas que sempre nos amesquinham. Pela maldade descemos ao monturo; e pela virtude e bondade subiremos dele! Todo o sofrimento, seja em que forma for, é sempre um fogo que depura, e por isso não devemos maldizer o sofrimento, mas modificar a nossa conduta, de modo a tornar-nos melhores, mais virtuosos, conscientes, fortes e bons. E ao fim dessa grande batalha com o demónio que trazemos connosco ao Renascer, e que a Igreja Católica procura vencer com o Baptismo, estaremos aptos para sermos admitidos "entre os Príncipes", entre os que já viveram como nós, mas se libertaram da Lei da Morte, perdendo por esse motivo a necessidade de Renascer.

É pelo sofrimento e pela aprendizagem que nos tornamos dignos de "herdar o trono da glória".

 

Ref.ª: I Livro de Samuel, Cap. II, 3 e seguintes.

 

Francisco Marques Rodrigues

 FONTE: http://revista-rosacruz.planetaclix.pt/tema/bibl/biblia2.htm

 

O Renascimento nas Escrituras Sagradas

III

No Salmo XXII descreve-se a desesperada luta que o Cristo interno, esse deus que mora em nós e se chama Espírito, Eu, Ego, trava quando se aproxima o termo da sua peregrinação na Terra. Então a , quer dizer, a Confiança no poder divino, é o único arrimo do Espírito que anseia por se libertar do círculo vicioso do renascimento, a que anda ligado pelas consequências da sua maldade. Ele terá de aprender as lições da vileza e só depois poderá renunciar aos prazeres tão fugazes da matéria, sempre enganadores, ilusórios, geradores de sofrimento.

Neste Salmo faz-se um relato bastante preciso do que veio a suceder a Jesus, no final da sua existência terrena, dando-se ao mesmo tempo como cousa certa a tribulação para todo aquele que prepara a sua ascensão ao plano espiritual. E nós encontramos entre as sentenças populares uma, que nos notifica a mesma sorte: "Quem se mete a redentor é crucificado!"

Este Salmo é especialmente recomendado para a leitura e meditação matutina, antes do começo dos trabalhos quotidianos.

No final do referido Salmo o autor fez duas afirmações muito importantes e que nos esclarecem a respeito do renascimento, e do seu mecanismo, nestes termos:

"Uma semente o servirá: ela será reputada por geração diante do Senhor."

Baseados nos textos bíblicos, os Rosacruzes ensinam que, no momento em que morremos, cerramos para este mundo a nossa vista física e abrimos todos os sentidos do Espírito para a eternidade. Então, ao exalarmos o último alento, começamos a ver o filme da vida que findamos. E esse filme começa exactamente do momento da morte para o nascimento, terminando exactamente no momento em que se respirou pela primeira vez. Desta maneira gravamos num átomo do coração já em repouso a memória de tudo quanto fizemos neste mundo. E as nossas vidas futuras dependerão largamente da nitidez da gravação dessa memória ou semente do porvir.

Este átomo, que o espírito leva consigo, para sobre ele preparar o próximo renascimento, chama-se Átomo-Semente, por nele estar contido todo o nosso destino futuro. E por esse motivo o Sábio Rei David lhe chama "Uma semente", e nos garante que "Será reputada por geração diante do Senhor", porque o Salmista sabia que o átomo-semente, também chamado nos escritos sagrados o Livro da Vida, contém o registo de todos os nossos actos, essas sementes que são os nossos actos, e que, em vidas futuras hão de germinar, crescer, florir e dar os seus frutos, para que, de geração em geração, quer dizer de vida em vida, de renascimento em renascimento, possamos vencer o nosso grande, por vezes irresistível pendor para o mal, e nos inclinemos amorosa e entusiasticamente ao Bem, ao Belo, à Perfeição.

O átomo-semente guarda em si mesmo, no éter de que se formou, tudo quanto necessitamos para assegurar uma evolução normal. Por esse motivo a pessoa que falece deve logo ser defendida contra os alaridos, os gritos, as discussões, para que em Paz, no mais profundo silêncio possa estar entregue à contemplação desse panorama da vida finada, para que possa recolher integralmente todas as imagens do que fez enquanto viveu na Terra. Esta será a mais perfeita homenagem que se poderá prestar a quem morre, pois traduz-se num inestimável auxílio para as vidas futuras que o Ego irá ter.

Chorar junto de quem morre, ou fazer pranto, é causar ao falecido o maior prejuízo que se pode imaginar, pois deste modo se lhe perturba a recolha do filme da vida terminada e se impede que possa estabelecer o programa da futura volta a este mundo.

Chorar, lamentar quem morre, ou perturbar o silêncio que necessita para ver bem as imagens do que fez enquanto viveu na Terra, é um crime! Desse modo se impedirá o falecido de organizar o seu átomo-semente, a sua crónica ou história do que foi, para que sobre esse registo possa esboçar as suas directrizes das vidas futuras, sofrendo assim um prejuízo impossível de calcular, mas certamente enorme!

Falando dos gentios, quer dizer, dos não iniciados, David afirma que todos entrarão pela mesma porta estreita da iniciação, do conhecimento, e se libertarão das condições terrenas pelo conhecimento das divinas.

"Eles virão, e anunciarão a sua justiça a um povo que, por ele ter feito o sacrifício, Há-de Nascer".

"Por ele", quer dizer, pelo Cristo, que viria a este mundo, para despertar os mais adiantados na evolução, para as cousas divinas. Eles seriam depois os continuadores da grandiosa obra doMessias, destinada a despertar o maior número de Egos capazes de ajudarem os Divinos Seres na sua nobre missão de acelerar as nossas condições evolutivas. Depois da vinda de Cristo esses nasceriam, viriam para este mundo a prazos mais curtos, com a missão de impulsionar o progresso dos seus irmãos divinos, como eles vestindo corpos de carne e ossos, feitos do pó da Terra e à terra destinados.

"...diante dele se prostrarão todos os que descem ao pó". Mas, aos que por cómoda ignorância negam o renascimento, daremos um pouco mais da luz do famoso Rei David, que se revela profundo conhecedor da ciência espiritual. Ele nos diz, da morte e do regresso à vida, o seguinte:

"...tirando-lhes tu o espírito expiram, e tornam ao seu pó. Enviando tu o teu espírito, são criados: e renovas a face da Terra".

Aqui afirma-se a existência do espírito independente da forma corporal, e a sua volta a este mundo depois de haver sido restituída ao pó da Terra essa forma. É bem clara a destrinça entre a parte divina, eterna, e a transitória, terrena, feita de pó e ao pó condenada a reduzir-se pela morte, como bem clara é também a afirmação de que o espírito volta a renascer – "tirando-lhes tu o espírito, expiram, e tornam ao seu pó. Enviando tu o teu espírito, são criados: e renovas a face da Terra". Isto é: renova-se a face da Terra pelo renascimento sucessivo! E se assim não fosse, como poderíamos evoluir? Sim, como nos aperfeiçoaríamos?

Primeiramente temos de aprender as condições terrenas e as vantagens e inconvenientes de nos submetermos inteiramente às suas leis: depois nos graduaremos para mundos mais belos; e tudo se conseguirá pelo Renascimento, uma vez numa forma física, outra noutra; uma vez na feminina, outra na masculina, e assim se justificam os rudimentos de seios que tem o homem, e que até à puberdade o rapaz e a rapariga mantenham formas corporais muito aproximadas; e que os nossos destinos sejam tão caprichosos.

Isaías, que muitos séculos antes da vinda, de Jesus anunciou o seu nascimento, o que faria e como terminaria a sua passagem neste mundo, ao falar desse espantoso acontecimento que abalaria o mundo, disse:

"Os teus falecidos viverão", quer dizer que voltarão a viver, a renascer. E Malaquias, o último Profeta, fala-nos do Renascimento com a maior naturalidade, o que prova ser doutrina corrente naquele tempo. Ele assim nos anuncia a vinda de Elias:

"...estou para vos enviar Elias, o Profeta, antes que venha o dia grande e tremendo do Senhor".

 

Referências

 

Salmos: XXII. N.ºs 31 e 32; CIV, N.ºs 29 e 30; Isaías, Cap. XXVI. n.º 19; Malaquias, Cap. IV n.º 23.

 

Francisco Marques Rodrigues

FONTE:http://revista-rosacruz.planetaclix.pt/tema/bibl/ensina.htm

O Renascimento nas Escrituras Sagradas

IV

Entremos, agora, no exame do Novo Testamento, onde o problema do Renascimento vem tratado em termos que não deixam dúvidas e nos mostram ser doutrina correntemente aceite e defendida pelos Cristãos e pelos seus antecessores – os Essénios.

Referindo-se a João Baptista, Jesus disse:

"Porque este é aquele de quem está escrito: Eis aqui envio o meu Anjo ante a tua face, o qual aparelhará o teu caminho diante de ti. Na verdade vos digo, que não se levantou entre os nascidos de mulheres, outro maior que João Baptista, mas o menor no Reino dos Céus é maior do que ele. E desde os dias de João Baptista até agora, se faz força ao Reino dos Céus, e os violentos o arrebatam.

Porque todos os Profetas, e a Lei até João disseram: "E se o quereis receber, este é Elias, que havia de vir"1.

"Este é Elias, que havia de vir", revela que João Baptista era o próprio Elias. Não se pode interpretar doutro modo esta afirmação do Messias.

Reino dos Céus quer dizer paz de Consciência, nascida de uma elevada pureza, e não um lugar onde possamos estar inactivos.

O menor no Reino dos Céus já está liberto das condições mesquinhas da Terra e por este facto é maior que o maior dos que ainda vivem na Terra, nas condições terrenas.

Desde os dias de João Baptista até agora se faz força ao Reino dos Céus, e os violentos o arrebatam, quer dizer que as condições evolutivas da Humanidade, a partir de João Baptista se modificaram, tornando-se melhores até ao ponto de os violentos, os de vontade forte, poderem vencer as suas imperfeições que lhes criavam dificuldades ascensionais, e entrar mais depressa nesse maravilhoso estado de perfeição que os Cristãos chamam Reino dos Céus.

"Naquele tempo ouviu Herodes, o Tetrarca, a fama de Jesus; e disse aos seus criados: Este é João Baptista; levantou-se ele dos mortos, e por isso obram nele as maravilhas"2.

Aqui, Herodes admite plenamente a ressurreição de João Baptista, ou pelo menos que o precursor tenha utilizado o corpo de seu primo Jesus para se manifestar aos vivos, o que parece mostrar que naquele tempo era crença geral.

E não deve causar pasmo essa crença de Herodes, porque em nossos dias, admitiu-se, no processo para a canonização de Pio X, o depoimento de um advogado de Nápoles – Francesco Balsane – e o de uma freira – Maria Luísa Scorci – que declararam haverem sido curados de gravíssimas enfermidades incuráveis, pelo espírito do falecido Pontífice Pio X!3.

Em todos os tempos os vivos e os "mortos" puderam comunicar entre si, para praticarem o bem, ou para o mal, e a própria Igreja Católica nos dá inúmeros testemunhos deste facto.

"E vindo Jesus para as partes de Cesareia de Filipe, perguntou aos seus Discípulos: Quem dizem os homens que sou eu, o Filho do Homem?"

Eles responderam: "Uns dizem que João Baptista, e outros que Elias, e outros que Jeremias, ou algum dos Profetas".

"Mas vós, quem dizeis que sou eu?"

E Simão Pedro disse: "Tu és Cristo, o filho do Deus vivo"4.

A teoria do Renascimento era a base de toda a religião dos Essénios, que foram os preparadores do advento do Cristianismo. Não admira, por esse motivo, que o Messias, ao examinar os seus alunos ou Discípulos, os interrogasse a respeito desse ponto fundamental da sua crença. E a resposta de Pedro mostra bem claramente como todos acreditavam na antiga teoria doRenascimento e na Ressurreição, pois mostra-nos não somente a sua opinião individual, mas a de muitos, que admitiam que Jesus fosse João Baptista, algum tempo antes assassinado por ordem de Herodes, ou que, se não era o Baptista seria Elias ou qualquer dos profetas antigos.

Um dos pontos que mais contrariaram a aceitação de Jesus como Redentor, foi a condição em que pertinazmente se mantinham os Escribas, de que o Messias não viria sem que primeiramente renascesse Elias. Por esta razão os Discípulos de Jesus lhe perguntaram:

– "Por que dizem os Escribas, que é necessário que Elias venha primeiro?

E Jesus respondeu:

- "Na verdade Elias há-de vir primeiro e restaurará todas as coisas. Mas digo-vos, que Elias já veio, e não o reconheceram; antes fizeram dele quantas coisas quiseram. Assim padecerá também o Filho do Homem".

"Então entenderam os Discípulos que Ele lhes falava de João Baptista"5.

Nestas passagens está o assunto delineado com tão grande clareza que nos dispensamos de o explicar.

Deixemos agora o Evangelho de Mateus e passemos ao de Marcos, onde prosseguiremos na busca de ensinamentos ou de revelações acerca do Renascimento, e aqui encontramos nova edição do que já foi exposto:

Herodes, espantado com os feitos de Jesus, crê que o Salvador seja o próprio João Baptista ressuscitado; outros afirmam que Jesus era Elias ou então qualquer dos famosos profetas antigos6.

E desta maneira se mostra a mesma fé inabalável, a mesma crença na Lei do Renascimento.

Lucas, o Terapeuta ou Médico essénio, faz no seu Evangelho a reedição das mesmas afirmações de Mateus e de Marcos7, indo um pouco mais além deles, naquele encontro dos Saduceus que negavam a ressurreição – e Jesus, a quem interrogam:

- "Mestre: escreveu-nos Moisés que se morrer o irmão de algum, tendo mulher, e morrer sem filhos, que tomasse seu irmão a mulher e levantasse semente a seu irmão. Havia, pois, sete irmãos. E o primeiro tomou mulher, e morreu sem filhos. E o segundo tomou a mulher, e também este morreu sem filhos. E tomou-a o terceiro, e assim também os sete, e não deixaram filhos e morreram. E depois de todos morreu também a mulher. Na ressurreição, de qual deles é a mulher?"

E respondeu Jesus:

– "Os filhos deste século casam-se e dão-se em casamento. Mas os que têm sido julgados dignos de alcançar aquele século, e a ressurreição dos mortos, nem se casam, nem se dão em casamento. Porque já nem podem mais morrer; porque são iguais aos Anjos. E que os mortos hajam de ressurgir o mostrou também Moisés, na Sarça, quando chama ao Senhor o Deus de Abraão, e o Deus de Isaac, e o Deus de Jacob.

Ora Deus não é Deus de mortos, mas de vivos, por que todos vivem para com Ele"8.

A morte despe-nos da forma terrena, feita do pó da Terra, e por este facto as relações conjugais ficam desfeitas com o falecimento, razão porque desde a mais remota antiguidade se reconheceu à viúva o direito de contrair novo matrimónio.

Os sexos só existem no corpo corruptível, carnal. Por isso, no mundo espiritual não aparecemos como marido e mulher, mas como amigos, inteiramente libertos de condições terrenas. E convém não esquecer que a mais bela forma do amor é a amizade, porque não exige nem oferece retribuição interesseira em troca.

As relações conjugais são necessárias apenas neste mundo, enquanto vivemos em corpos de carne e ossos, para que possamos reproduzir as mesmas formas e manter o equilíbrio no plano evolutivo.

No mundo espiritual não há necessidade dos sexos. Todavia cada espírito possui as duas polaridades mas só faz uso delas enquanto habita o corpo carnal. E só nos reproduzimos enquanto não atingimos a perfeição moral ou espiritual. Porque, chegados a tão alto estado de perfeição, termina a nossa carreira evolutiva e ficamos para sempre libertos das condições terrenas do Renascimento, e então todos seremos cristos ou deuses e neste altíssimo estado não voltaremos a Renascer na Terra. Por este facto o Divino Mestre disse dos que chegam à meta, que já nem Podem mais Morrer.

Estas palavras – Já nem Podem Mais Morrer – só por si, mostram que morremos muitas vezes, e tantas quantas forem necessárias para atingirmos a mais alta perfeição, pois só depois de atingirmos esta não podemos mais morrer, e consequentemente renascer.

E finalmente chegamos ao Evangelho de João, o mais transcendente de todos.

Os Judeus mandaram sacerdotes e levitas a João Baptista, para que os informasse da sua natureza, e os emissários interrogaram-no deste modo:

– És tu Elias?

– E João Baptista respondeu:

– Não o sou.

– És tu o Profeta?

– Não.

– Por que baptizas, se não és o Cristo, nem Elias, nem o Profeta?

E João Baptista respondeu:

– Eu baptizo em água. Mas no meio de vós está quem vós não conheceis. Este é o que vem atrás de mim, o qual foi antes de mim, e do qual eu não sou digno de lhe desatar a correia do sapato"9.

Os sacerdotes e os levitas admitiam perfeitamente que João Baptista fosse Elias ou qualquer dos grandes profetas antigos, o que prova que a teoria do renascimento era aceite sem relutância pelo clero judaico.

É interessante o caso de Nicodemos:

"Na verdade te digo, que quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus.

Diz-lhe Nicodemos:

– Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer?

Respondeu Jesus:

- Na verdade te digo, que quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. Aquilo que é nascido da carne, é carne; aquilo que é nascido do Espírito, é Espírito.

Não te maravilhes de eu te disser: é-vos preciso nascer de novo. O Espírito sopra onde quer, e tu ouves a sua voz: porém não sabes donde vem, nem para onde vai: assim é todo aquele que nasceu do Espírito.

Pergunta Nicodemos:

– Como se podem fazer estas coisas?

Respondeu Jesus:

– Tu és Mestre em Israel, e não sabes estas coisas? Na verdade te digo, que dizemos o que sabemos; e ao que vimos, damos testemunho, e nem por isso recebeis o nosso testemunho. E nas coisas terrenas vos tenho falado, e não credes; como crereis, se vos falar nas celestiais?"10.

Não carece de comentário o que acabamos de ler. Foi copiado da Escritura Sagrada, por todas as religiões aceite como sendo a palavra de Deus. Isto basta-nos para que mereça o nosso profundo respeito e portanto aceitemos como certa a nossa volta a este mundo, para recolhermos nele todos os frutos do que semeamos com os nossos pensamentos e acções, que todos esperam por nós, paciente e inflexivelmente, para serem colhidos por nós.

Se não fora assim, como nos aperfeiçoaríamos? Como evoluiríamos nós se não renascêssemos e se não provássemos até às vezes o cálice que por nossa livre e espontânea vontade preparamos ao longo de vidas?

Todos os nossos actos esperam por nós e nos farão saber quanto valem. Por esta via endireitaremos a nossa carga e levaremos a cruz sombria dos nossos corpos até ao cimo do calvário, e ali veremos como deixou de ser negra e se tornou branca, imaculada e refulgente de luz.

À custa dos nossos erros, sempre geradores de sofrimento e de tristeza, nós abriremos os sentidos espirituais e aperfeiçoaremos os nossos caminhos, os nossos modos de pensar e de agir.

Para terminar, ainda mais um caso que nos fala do Renascimento.

– "Rabi, quem pecou? Este, ou seus pais, para que nascesse cego?"11.

Na Lei antiga afirma-se que o Deus de Raça vingaria a iniquidade dos pais nos filhos até à quinta geração, mas não se diz que nestas gerações os personagens alvejados pela vingança divina, eram os mesmos que tinham andado mal e depois Renasceram para recolher os frutos dos seus actos. Mas os pais, Renascendo, viverão nos seus próprios actos anteriores, porque, cada um de nós constrói, com os seus actos, numa vida, o mundo em que depois viverá. Daí a sentença: "Assim como fizeres, acharás".

Porque, não seria justo que pagasse o inocente pelo culpado! Nem os seres Divinos que velam pela nossa evolução nos levariam por tão duros e tortuosos caminhos.

O pai de hoje será filho amanhã, e terá então somente o que mereceu.

Por isso aquele que nasce cego vem indigno de usar um instrumento de que em vidas passadas fez mau uso.

Em que condições renascerá aquele que, por ter visto a beleza em toda a sua plenitude, não a soube ver, mas antes a manchou com o seu impudor e lascívia? Aquele que não se cansou numa vida de abrir às donzelas o negro caminho da podridão moral?

Quem faz mau uso da vista, e por causa dela prostituiu a pureza, é mais que certo que renascerá com limitações visuais, limitações que vão, muitas vezes, até à privação total do uso da vista.

Portanto, quem pecou, não foi o pai do que nasceu cego, mas o próprio cego. E a pergunta mostra ser corrente a doutrina do Renascimento, naquele tempo, visto que o perguntante admite que o cego tenha sido o culpado da sua cegueira, e se assim é, ele só podia ter pecado noutra vida antes desta.

E a doutrina do Pecado Original, onde estriba, senão nas culpas de vidas passadas? Não será essa doutrina uma confissão tácita da Lei do Renascimento?

Todos os cristãos têm como base da sua crença a Lei do Renascimento, e em face dela se preparam para o seu aperfeiçoamento individual, única via segura que leva à inteira libertação das condições mesquinhas e dolorosas da Terra, pela Cristificação.

 

Francisco Marques Rodrigues

 

Notas

 

l, 2, 4 e 5 Mat – XI, 14; XIV, 2; XVI, 13-14, XVII, 10 e 13. 
3 Jornal Novidades – N.º 19.227 de 30-5-1954. 
6 Mar VI, 14-16; VII, 27-28: IX, 13. 
7 e 8 Luc IX, 7-9, e 18-20; XX, 34 e 38. 
9, 10 e 11 Jo I, 15, 21-30; III, 3-4; VIII, 58; IX, 2. 

 

FONTE:http://revista-rosacruz.planetaclix.pt/tema/bibl/renasce.htm

O Renascimento nas Escrituras Sagradas

V

Depois da longa peregrinação pelas cerradas colunas das Escrituras Sagradas, vimos como nelas se fixou, cautelosamente, o antigo conhecimento dos destinos de todos os seres terrenos, pois o que têm os humanos, descontadas as diferenças que os distinguem de todas as outras espécies, é comum a todos: ao fim de certo espaço de tempo fecha-se um ciclo evolutivo e vem a necessidade imperiosa, fatal, de mudança nas condições; inicia-se um período de repouso e assimilação do que se recolheu durante as experiências realizadas no ciclo terminado. E a isto se convencionou chamar Morte. Por isso os seres que vivem na Terra não ultrapassam determinadas idades.

O Homem, até que chegue ao pleno amadurecimento, necessita de passar por transformações que abrangem um ciclo de vinte e um anos – três vezes sete! –, e em cada sete anos, inicia e conclui uma tarefa: do nascimento aos sete anos organiza o corpo vital, a mola real de toda a sua vitalidade; dos sete aos catorze anos, forma o corpo de desejos – aquela parte de nós mesmos, tão complexa e ao mesmo tempo tão maravilhosa, que nos faz sentir, ver, gozar, sofrer, amar, odiar, em suma: que nos faz agir, buscar, lutar, crescer animicamente, evoluir! – dos catorze aos vinte e um anos estrutura o corpo mental – o conjunto de peças que formarão a mente, o instrumento pensante, que permitirá ao Ego tomar inteira responsabilidade dos seus actos. E tanto isto é assim, que até hoje a lei não reconhece aos humanos a sua completa maturidade, a sua maior idade, a sua plena posse do que chamamos razão, antes dos vinte e um anos1. Só depois de vinte e um anos estamos completos, inteiramente aptos para a responsabilidade total dos nossos actos. Porém as espécies de vida inferiores ao Homem, desprovidas dos complexos dispositivos que têm os seres humanos para a sua manifestação na Terra, atingem a sua maioridade muito mais cedo! E a maior parte deles tem uma duração muito inferior à nossa, morrendo antes que nós tenhamos atingido a maioridade!

É que, infinitamente mais atrasados na evolução, eles necessitam renascer muitas mais vezes que os seres humanos. Todavia, podemos encontrar algumas espécies que prolongam a sua existência muito para além da nossa, o que mostra um grande avanço na evolução dessas espécies, e também a sua raridade. Este avanço na escala evolutiva é circunscrito a cada espécie, que por muito avançada que esteja nunca sai dessa espécie até que atinja as condições para constituir, numa época futura e muito distante, uma nova humanidade. Estas espécies, na medida em que alcançam determinado nível evolutivo, parece que deixam de renascer – e por isso rareiam tanto.

A Morte não é mais do que repouso, descanso e assimilação dos frutos das experiências realizadas – mas somente quando é natural, isto é, quando vem ao fim do ciclo predestinado: porque na morte violenta, particularmente no suicídio, não sucede assim! Não há repouso nem assimilação e temos de recomeçar o ciclo interrompido, exactamente em meio das mesmas condições que levaram a pôr termo à existência! Renasce-se, portanto, em meio de condições particularmente difíceis e com total falta de coragem para repetir esse tresloucado acto, porque nos fica dele um terror estranho e não podemos sequer suportar essa tão negra, sinistra ideia. E assim completaremos o ciclo interrompido, falecendo então naturalmente para entrar no repouso e assimilação dos frutos que semeámos até ali. Porque, os nossos actos – dos mais insignificantes aos mais graves – esperam sempre por nós! E são eles mesmos que formam os nossos destinos, de harmonia com a Divina Lei de Causa e Efeito, que tão sabiamente rege todos os nossos actos e conduz toda a nossa evolução ao longo de vidas sucessivas – todo o nosso aperfeiçoamento moral e físico no sentido da mais alta dignificação humana.

Escreveremos, daqui por diante, não sobre o renascimento nas escrituras sagradas, mas a respeito das causas e dos efeitos dos nossos pensamentos e actos, ao longo de vidas e das suas repercussões no renascimento. Poderemos assim meditar sobre as consequências de toda a nossa actuação, dia a dia, momento a momento, e seguir a recomendação do precursor do Cristianismo, endireitando as nossas veredas, isto é, os nossos modos de ser, para assim apressar a nossa evolução – que outra coisa não é que o nosso aperfeiçoamento individual.

 

 

Francisco Marques Rodrigues

1 Actualmente aos 18 anos. 


FONTE:http://revista-rosacruz.planetaclix.pt/tema/bibl/biblia3.htm

 

O Renascimento nas Escrituras Sagradas

VI

Por que viemos ao mundo? Porquê tanta desigualdade nos destinos humanos? Por que se nasce para a pobreza ou para a riqueza? Para ser génio ou cretino? Para ter inteligência lúcida ou obtusa? Dispor de olhos perfeitos, deficientes ou mesmo cegos? Ser feliz ou infeliz?

Todas estas perguntas e muitas outras nos foram dirigidas por pessoas torturadas e descrentes das religiões, ignorantes duma sábia lei que tudo rege do alto dos Céus: vieram como setas envenenadas por um cepticismo impressionante e doloroso, disparadas por almas que viviam na mais angustiosa e negra ignorância das Leis Divinas, e já prontas para o suicídio, em que anteviam a única solução dos seus cruciais problemas!

Ouvimo-las confrangidamente, sem um vislumbre do que poderíamos responder! Tão pequeno nos sentíamos para tão grande obra, qual era a de mudar o rumo a tão pesados e sombrios pensamentos. Eram consciências entenebrecidas que se ajoelhavam diante de nós, que se abriam em confissão sincera e pura, ansiosas de luz e de conforto moral, que lhes permitisse um rumo novo. E por isto mesmo nos sentíamos ligado aos infelizes, solidários com eles na sua grande dor. E na busca de auxílio para os libertar do suplício da dúvida, assim lhes falamos:

Em um tempo que dista de nós muitos milhões de anos – talvez mesmo biliões! Quem o sabe? – nós, os seres humanos, iniciamos a nossa descida do mundo celeste, em peregrinação pelos domínios da matéria. E aos poucos fomos dispondo as coisas para criarmos os meios de utilizar a matéria, moldando-a e ao mesmo tempo sondando até ao mais profundo as suas leis. E, com lentidão desesperada, fomos organizando cada uma das peças que formam os nossos corpos, estas maravilhas de engenharia e ciência puras! Mas... a matéria também possui as suas leis! Porque, no Universo tudo se rege por leis, de vária natureza, e por isso o Homem, para se disciplinar, crescer espiritualmente, também se viu compelido a ditar leis, a reger-se por leis. Por isso todas as escolas de filosofia ocultista afirmam que, em baixo, aqui na Terra, é como em cima, nos mundos espirituais ou celestes.

Na medida em que o Homem organizou os seus meios de contacto com a matéria, começando pelos mais subtis e terminando nos mais grosseiros ou densos, que são a carne e os ossos, foi-se tornando, também, escravo das leis terrenas e criou vícios, caiu no domínio dos instintos, sempre amigos de tudo quanto é vil ou envilece. E assim se esqueceu da sua primitiva pureza celeste! Por esta via se tornou interesseiro, egoísta e mau. Destarte se afastou cada vez mais do plano divino, criando para si mesmo as mais duras condições!

Viemos ao mundo terreno como espíritos originais, puros, inocentes, para trabalhar com a matéria, aprendendo a moldá-la e a dominá-la, e assim nos graduarmos para mais altas tarefas, porque, nascidos de um Deus, somos, ipso facto, deuses também, e temos à nossa espera altas tarefas a realizar. Porém, os traiçoeiros laços da matéria, sempre ilusórios, desconcertam os meios de que dispomos para nessa orientação no rumo divino, e tornam mais difíceis as nossas condições, mais penosa a nossa ascensão, que só se conseguirá por um constante aperfeiçoamento individual, que se chama Evolução. O que somos agora não é o resultado de um acaso, fortuito e ilusório! É o somatório do que fomos, ao começo de vidas passadas.

A morte não destrói a vida, mas suspende a existência, caridosamente, para que voltemos à pátria celeste, ao alimento divino, esse Maná que nos tornará mais fortes e louções, de vida em vida. A morte é simplesmente um tempo de exame do que fizermos, de recolha dos frutos das nossas acções, de descanso e preparação para maiores avanços na senda progressiva da evolução. Renascemos, portanto, para continuar a evoluir, em busca da perfeição, e por isso mesmo, neste mundo vivemos entre espinhos e rosas crucificados. Assim como a roseira está eriçada de espinhos, mas dá, para seu noivado, as mais belas flores, assim nós, espíritos divinos, temos corpos eriçados de desejos que ferem como espinhos, porque nos levam a acções maldosas, que nos criam responsabilidades, amarguras e dores, sem contudo deixar de nos abrir os olhos para as mais altas realidades.

São as rosas os nossos mais caros símbolos, por isso mesmo.

Somos os senhores dos nossos pensamentos e actos e por essa razão temos de assumir a inteira responsabilidade que deles emerge, porque as nossas acções esperam sempre por nós e são elas que formam os nossos destinos.

Viemos ao mundo para saldar culpas, velhas culpas de vidas passadas! Por isso o que temos agora não é mais do que o fruto do que semeamos em vidas passadas. Temos, portanto, de ser corajosos para enfrentar as nossas dificuldades e vencer os obstáculos que criamos dando largas rédeas ao cavalo das nossas paixões vis, e só o conseguiremos pondo apertado freio ao animal, ao grosseiro que temos em nossos corações! Só assim, vivendo a vida, mas dignificando-a sempre, nós venceremos a batalha cruenta da existência. E teremos, depois, horizontes límpidos, a consciência liberta e em paz. Até que isto possamos conseguir, a luta será necessária, e cada vez mais forte, connosco mesmos, para sublimar tudo quanto em nós for grosseiro.

Não é o grotesco que fica, em nós, mas o sublime! Todavia não se chegará ao sublime senão por via do grosseiro. Mas, como aconselha S. Paulo, é bom provar de todas as coisas. para depois separarmos o que for limpo e bom, do que é sujo e mau. Retende apenas o que for limpo e belo! Para isto viemos ao mundo.

 

Francisco Marques Rodrigues


FONTE:http://revista-rosacruz.planetaclix.pt/tema/bibl/renasc1.htm

O Renascimento nas Escrituras Sagradas

Capítulo VII

A Divina Lei da Causa e do Efeito

Porquê tantas desigualdades nos destinos humanos?

Quando corpo físico atingiu a necessária eficiência foi dada ao Homem o uso da razão e da palavra. Então, os seres humanos começaram a pensar e a converter os seus pensamentos em palavras. O Homem começou a ter consciência da sua posição entre as restantes criaturas da Terra mas tornou-se egoísta, cioso dos seus interesses e das suas conveniências. E assim se tornou mau, pois que, para defender os seus interesses, tinha que desprezar os dos semelhantes. Deste modo, cada ser humano começou a separar-se dos outros, cuidando muito mais de si mesmo do que dos seus irmãos ou companheiros.

(...)

E, por isso, o Homem ficou, a partir dessa altura, entregue a si próprio para que, usando a razão, fosse juiz dos seus próprios actos e pudesse escolher entre o Bem que o elevaria mais rapidamente de Homem a Super-Homem, ou o Mal que o amarraria cada vez mais apertadamente à Terra e às suas dolorosas condições.

Assim, ao Homem, que fora criado inteiramente livre, era-lhe mantida essa mesma regalia. Continuava a ser totalmente livre para agir como quisesse, na certeza de que todos os seus pensamentos ou acções mentais, e os próprios actos físicos, ficariam esperando por ele, formariam o seu futuro ambiente, impregnado de alegria ou de tristeza, de felicidade ou de infelicidade. Como diz o ditado, "assim como fazemos, também havemos de recolher".

(...)

Os nossos actos esperam sempre por nós e são eles que tecem os nossos destinos! Assim como fizermos, assim mesmo acharemos quando voltarmos a este mundo, quando renascermos. E porque o que fazemos numa vida prepara a outra que se lhe segue, quando nascemos já trazemos connosco as probabilidades do que irá ser a nossa vida, o nosso destino ou fado. E é assim que, ao nascer e ao morrer, todos somos iguais: as diferenças devem-se a esta misteriosa palavra: Destino. De facto, assim como os nossos modos de ser e de agir são diferentes, também o destino de cada um de nós é distinto.

E porque se nasce, então, para a pobreza ou para a riqueza?

(...)

Sempre hão-de haver pobres e ricos, mas o melhor seria que todos soubessem usar com nobreza a fortuna, porque assim a felicidade humana seria muito maior.

Vejamos agora o quadro inverso. Se possuímos riqueza e dela nos servimos para humilhar os nossos semelhantes, considerando-os inferiores, tratando-os com desprezo e explorando mesmo o seu trabalho sem lhes dar a justa remuneração; se usamos os meios de fortuna apenas para gáudio do nosso inchado egoísmo, fechando os nossos ouvidos às queixas dos nossos irmãos desventurados e pobres; se além de não ajudarmos os nossos semelhantes carecidos de auxilio, com entusiasmo e amor, ainda os exploramos e diminuímos na sua liberdade e possibilidades de se enobrecerem cada vez melhor, então, quando voltarmos a renascer, teremos o nosso berço entre gente humilde e pobre. A explicação é simples. Nessas condições viremos despojados das possibilidades de obter riqueza. Cairemos no convívio de pessoas sem meios de fortuna, e com eles compartilharemos as condições ásperas dos sem-sorte, dos revoltados e inconformistas! Sentiremos, então, que tínhamos direito a um bom quinhão na felicidade que vem pelo dinheiro, pela riqueza matéria, mas tudo à nossa volta se prepara para que não possamos obter os meios financeiros que nos concedam mais ampla liberdade de movimentos. E, para muitos que usaram mal a fortuna, não só estão impedidos de a obter, como lhes vem negado também o mínimo auxílio dela!

(...)

Os seres humanos não nascem como as tristes ervas que ninguém semeia mas que ressurgem sempre na época própria! Renascem as pobres ervinhas na maior humildade e, sem que alguém as semeie ou cuide delas, dão sempre as mesmas folhas, as mesmas flores e as mesmas sementes que, por sua vez, darão ao mundo novas e graciosas plantazinhas. Mas nós, os seres humanos, nascemos sempre diferentes de vida em vida! Estas diferenças são exactamente o produto do que fizemos de vida em vida. E o que se dá com a riqueza dá-se com todos os ramos da actividade humana, o que confirma plenamente o dito popular: "Assim como fizeres, acharás"!

É claro que o provérbio não diz quando nem como havemos de achar os resultados das nossas acções, mas deixa-nos a certeza de que os havemos de encontrar, algum dia, nesta ou noutra vida, e isto é o que verdadeiramente importa.

O porquê das desigualdades nos destinos humanos está ligado ao passado de cada um de nós.

Aquele que faz as coisas viverá nelas. Portanto, se queremos destinos melhores, temos de emendar a nossa conduta, dia a dia, momento a momento e, assim, corrigindo os nossos modos de ser e de agir, de maneira que os maus se tornem bons e os bons ainda melhores, venceremos todos os nossos obstáculos porque, com este procedimento, estaremos a alterar os nossos destinos. É agindo que os tecemos e só agindo os havemos de modificar, para melhor ou para pior, mas certamente de harmonia com o que fizermos. Para isso temos de persistir sempre, com tenaz vontade de melhorar, de ser mais nobres de sentimentos e de acções.

(Resumo do texto publicado)

 

Francisco Marques Rodrigues


FONTE:http://revista-rosacruz.planetaclix.pt/tema/bibl/renasc2.htm

O Renascimento nas Escrituras Sagradas

Capítulo VIII

A Divina Lei da Causa e do Efeito

Porque se nasce génio ou cretino?

A Divina Lei de Causa e Efeito regula sabiamente a nossa actuação neste mundo! Tudo quanto Pensamos e tudo o que Fazemos está na alçada desta maravilhosa lei. Não lhe podemos escapar pois temo-la impressa em cada célula dos nossos corpos, e com ela está sempre o registo fotográfico de tudo o que Pensamos e Fazemos e, com ele, o castigo e a recompensa. Cada um de nós vive no seu próprio ambiente, no mundo que construiu, e daí não poderá sair sem primeiramente reformar por completo os seus hábitos, de modo a transformar o grosseiro em sublime.

Somos responsáveis por tudo quanto pensamos e por tudo o que fazemos. Assim, de vida em vida vamos edificando para nós, vamos preparando o ambiente em que havemos de mover-nos e viver! Na próxima volta a este mundo nós só temos como programa o que fizemos na presente existência e outras dívidas de outras vidas, que não puderam ser saldadas! (...)

Antes de agir, o ser humano pensa. De todos os instrumentos que o Homem, ao longo de muitos milhões de anos, renascendo e morrendo, foi arquitectando, construindo e aperfeiçoando, a mente é o mais caprichoso e importante. Porém o cérebro não foi estruturado para o sentimento, mas para pensar. Por isso quando o Homem tinha a sua "máquina" mental a funcionar logo se desviou da sua pristina pureza, que o tornava fraterno com os seres da sua espécie e o fazia dócil à influência dos seus guias espirituais. E o Homem começou a separar-se do Homem, movido por interesses, pelo egoísmo, que o tornaria tão duro e mau!

(...)

Mas, enquanto o Homem teimar em seguir na vida o curso natural dos seus instintos, sem lhe antepor o freio da moral e a luz do Espírito, a desarmonia continuará, e o resultado será o baixo nível intelectual, a soma de taras que se transmite de geração em geração, cada vez mais agravada pela rebeldia dos seres humanos ao Divino Espírito Santo, quer dizer àquela divina luz que dará aos seres humanos a oportunidade maravilhosa de se libertarem das cadeias insidiosas da terrena discórdia entre os instrumentos poderosos que possuem nos dois extrememos da espinha – o cérebro e o sexo.

As energias elaboradas no interior do crânio são repartidas entre o instrumento pensante e o reprodutor. Os desarranjos num refletem-se no outro. E os prejuízos causados numa vida manifestam-se nas vidas seguintes, que são elaboradas com as sementes recolhidas do que fizemos nas anteriores, e por isso mesmo iremos renascer de pais que estejam nas condições precisas para que recebamos nas estruturas dos nossos corpos materiais que se harmonizem com as necessidades que trazemos. O que nos transmitem os pais está em perfeita concordância com as nossas necessidades evolutivas. Depois está em nós a possibilidade de seguir ao sabor das ondas do Destino criado ao longo de vidas passadas ou de mudar essa corrente por meio de outra que parte do cérebro e do coração e não deixará que nos entreguemos cega e estupidamente ao predomínio e escravatura dos instintos.

(...)

Estancando a corrente das tendências miseráveis, conscientemente, o que se consegue mudando a sua natureza e sublimando-a mesmo, nós estamos avançando para a meta da perfeição a que todos nos dirigimos. Mas podemos ir mais além: podemos não nos deixar cair em tentação e ao mesmo tempo divinizar o tentador que se alojou no próprio sangue e pretende manietar a nossa alma.

E como poderemos consegui-lo?

Simplesmente pela força inteligente e esclarecida da nossa vontade. Se nos convencemos de que temos em nós mesmos energias formidáveis que podemos utilizar na duríssima batalha da vida, e despertamos para a luta contra tudo quanto nos inferioriza, amesquinha, nós faremos um avanço enorme na escala evolutiva, porque praticamos a epigénese, que nos ensina a melhorar constantemente os nossos hábitos, de modo que nos aperfeiçoemos voluntariamente. Em vez de recalcar em nós a força dos instintos trataremos de a sublimar, e assim lhe mudaremos o curso, quebrando numa vida as correntes que nos prendiam ao vil, ao terreno e grosseiro dos vícios, à limitada e dolorosa condição terrena. E quando renascermos, se não formos génios, para lá nos dirigimos, porque tenderemos para continuar a nossa gloriosa batalha contra o grotesco tentador e deste modo vamos sendo envolvidos no Divino Espírito Santo, que não é um homem, mas a Luz Sublime que nos vai enchendo o coração e o cérebro, fazendo de cada um de nós um pioneiro da perfeição humana.

(...)

Portanto, o que fizermos amontoará para nós, semente para nós, de harmonia com a divina Lei que regula a causa e o seu efeito.

O génio e o cretino são o resultado dos esforços feitos ao longo de vidas, para resistir ao tentador, que não é mais do que a personificação dos instintos vis, ou a queda total no domínio deles.

Os devassos e os bêbados são candidatos ao tristíssimo título de cretinos; os que refreiam a sua natureza emocional e procuram sublimá-la são candidatos felicíssimos ao titulo de génios.

(...)

Quantos destes obreiros, em vez de ensinarem os seus alunos se limitam a examiná-los, faltando às aulas ou não dando a estas todo o seu coração e cérebro, como deviam, mas depois, ao darem as notas de passagem o fazem cruamente, sem a menor consideração por aqueles que foram confiados ao seu talento de mestres, nem aos pais destes, que tantos esforços fazem para cuidarem da preparação de seus filhos para uma sociedade mais perfeita!

Tudo quanto se faça no sentido de ajudar ao aperfeiçoamento mental terá o apoio divino: e tudo o que se fizer ao contrário será frustrar o plano divino e por isso mesmo terá, a seu tempo, o castigo. Tais obreiros negativos renascerão com pesadas limitações mentais, pois como diz o povo, "elas cá se fazem e aqui se pagam"!

(...)

Um grande criminoso no campo mental é o hipnotizador! Este desgraçado mago negro, que julga estar senhor duma ciência para fazer dela o uso que lhe aprouver, é o dominador de Egos, que pela força da sua vontade disciplinada expulsa do domínio dos seus corpos, submetendo-os inteiramente à sua vontade e muitas vezes aos seus defeitos e vícios!

O hipnotizador substitui no cérebro das suas vítimas uma porção de éter do corpo vital, por outra porção de éter do corpo vital dele próprio e assim, por cada vez que hipnotiza a sua vítima vai avolumando esse núcleo na cabeça do paciente até que consegue dominá-lo completamente; e onde quer que esteja, e a qualquer hora, transmite-lhe as suas ordens e o infeliz tem de cumpri-las!

Desta maneira o hipnotizador retira ao Ego a sua liberdade individual, e assim desorganiza a sua evolução, porque faz dele um verdadeiro autómato!

Será muito bom não esquecer que o Hipnotismo é uma das Ciências Malditas que são englobadas sob o título de Magia Negra ou mais popularmente Bruxaria.

(...)

Todavia estes desgraçados existem porque não falta quem goste de utilizar os seus refalsados préstimos, envilecendo-os assim muito mais ainda!

As suas vítimas, vendo minado o terreno sob os seus pés, sofrem! E por vezes vão até ao desespero, caindo no suicídio, no desequilíbrio da saúde, devido à tristeza em que vivem e assim adquirem doenças que os levam mais cedo à sepultura ou os fazem arrastar uma existência de sofrimento! A cirrose do fígado é muitas vezes causada por uma profunda e demorada tristeza, devida à calúnia e à intriga.

Quanto mal espalham à sua volta estes miseráveis! E nem ao menos podem avaliar toda a extensão da sua maldade, porque a sua inferioridade moral é muito grande e por isso mesmo a sua mediocridade mental se revela. Mas, quando voltarem a renascer virão mais perto do cretino, se já o não forem!

Todos estes carrascos (que muitas vezes o são de outros Egos que em vidas passadas procederam de igual modo) receberão o negro salário da maldade! Nada se perde de tudo o que fazemos! Os nossos pensamentos e actos esperam por nós, ao longo de vidas, e farão delas o que eles foram!

(...)

Cada um de nós saboreará em vidas futuras os frutos de toda a sua actuação em vidas passadas, porque só assim podemos aprender o gosto que o fado tem! Fado é Destino; e Destino é o conjunto de tudo o que pensámos e fizemos!

Por isso, diz o povo – e a voz do povo é a voz de Deus! – "Quem mal anda, mal acaba"!

(Resumo do texto publicado)

 

Francisco Marques Rodrigues


FONTE: http://revista-rosacruz.planetaclix.pt/tema/bibl/renasc3.htm

O Renascimento nas Escrituras Sagradas

Capítulo IX

A Divina Lei da Causa e do Efeito

No princípio nós estávamos com DEUS, formando mesmo parte d’Ele, assim como fazem agora as células dos nossos corpos; mas não tínhamos existência material – éramos espíritos apenas. E por isso mesmo estávamos inconscientes da existência terrena, exactamente como sucede com as células dos nossos corpos. Também elas ignoram a existência do ser que as domina dentro dos seus moldes etéreos, nos quais nascem e morrem, se formam e transformam. Jamais conheceram o seu Deus criador que chamamos Ego ou Espírito, que é o que em nós se mantém eternamente, por ser de natureza divina.

(...)

De facto, estamos impedidos de formar do nosso Criador uma ideia tão concreta quanto o almeja o nosso árido intelecto! E, todavia, formamos parte do Corpo de Deus! Nele vivemos e existimos, física e espiritualmente, mas ao princípio éramos Espíritos Virginais. Por outras palavras: ainda não tínhamos entrado no campo da experiência que nos graduaria para mais altas missões.

Do estado virginal descemos ao experiencial, o que também se chama involução. E, assim, os Espíritos Virginais que formam a Humanidade a que pertencemos começaram por descer da sua pureza primitiva às condições terrenas para aprender a trabalhar com a terra, e para esse fim tiveram de criar os instrumentos necessários para se apossar dela e a dominar.

E já vamos muito longe nesta magna obra, procurando agora abrir caminho através dos espaços siderais!

O que somos agora representa milhões e milhões de anos em luta viva entre a morte e a vida, ora na matéria ora livre dela, mas sempre lutando e vivendo em busca de maior poder e perfeição! E de experiência em experiência, nós, espíritos, da natureza etérea, criámos os instrumentos que chamamos corpos ou veículos invisíveis. E com eles atraímos a matéria nas suas formas subtilíssimas, para com ela formar a nossa carne e ossos. É com estes corpos que nos manifestamos neste mundo e trabalhamos com a matéria, moldando-a, transformando-a e provando até ao mais profundo as suas leis. E assim podemos dominá-la inteligentemente, graduando-nos para irmos de homens a Super-Homens, ou seja, de homens a deuses criadores porque, a grande finalidade a atingir com a nossa descida aos domínios materiais é precisamente essa.

O que somos representa muitos milhões de anos de luta nesta roda viva de renascimentos e mortes, na ânsia suprema de atingir a luminosa meta da Perfeição, de ser um Deus Criador. E esta meta não pode ser alcançada sem termos caído no caminho! Por isso não devemos censurar os caídos pelas suas debilidades morais: devemos ajudá-los a levantar-se, a caminhar com maior segurança na senda evolutiva, para que mais depressa cheguem à meta, ao final da senda evolutiva – a Perfeição Divina.

(...)

Os livros sagrados falam-nos dos vários estados por que passamos antes de sermos o que somos.

Isto, no entanto, não estava ao alcance dos leitores vulgares, porque os escritos da Bíblia foram produzidos por iniciados e eram destinados apenas a outros iniciados. Por isso, nem todos podiam entender aqueles substanciosos documentos, escritos em sentido figurado. Porém, agora, que a Humanidade evoluiu tanto, já pode começar a receber a luz contida nesses livros maravilhosos. Mais tarde recebe-la-á mais amplamente, por haver atingido então um mais alto grau de desenvolvimento.

(...)

Para perceber a luz criou o Homem uns instrumentos de tão rara sensibilidade que, se não tem com eles e com o seu uso o cuidado necessário, estragam-se, avariam-se, e podem até perder-se!

A estes maravilhosos instrumentos se chamou "olhos".

Diz-se que são estes delicadíssimos instrumentos as janelas da alma, e nós assim o cremos! É por meio deles que o Homem pode orientar-se e ver tudo quanto o cerca e cabe na esfera da sua capacidade. Porém, tudo quanto fica abaixo ou acima do seu poder visual não será percebido por esses admiráveis órgãos de percepção. E, por isso, o Homem inculto e atrasado é o que mais nega, pois a sua tendência é para aceitar apenas o que pode ver com os seus próprios olhos.

(...)

De todos os meios que levaram o Homem a cair da sua antiga e altíssima dignidade espiritual foram, sem dúvida, os olhos os mais poderosos instrumentos de perdição, por não serem usados dignamente!

Desde que o Homem usou os olhos para fins indevidos, tudo se complicou na escala evolutiva! E disso nos dá a Bíblia uma ideia bem nítida quando relata a queda do Homem, a que chama a expulsão do Éden! É uma revelação de que o Homem não viu castamente a beleza da forma física da mulher e se deixou perturbar por ela, esquecido inteiramente de que a vista lhe fora dada para buscar a beleza e para a tornar mais bela ainda, e não para afeiar o belo e pulcro.

Se não fossem os olhos, o Homem não teria sido tão mau! Ele não teria semeado em redor de si tanta tristeza e sofrimento! Mas, verdade é que pelo aguilhão do sofrimento o Homem avançou muito, pois quanto mais sofremos mais adiantamos a nossa evolução, o nosso aperfeiçoamento!

O homem terreno – referimo-nos ao homem feito de terra, do pó da Terra, o homem físico – é sempre atraído para o grotesco e vil, por um estranho poder que seduz com a maior subtileza e obriga depois o Homem – o ser espiritual ou ego –, a escravizar-se totalmente ao ilusório e enganoso poder dos instintos. São os instintos uma espécie de embaixadores do demónio autocriado, que vive, por assim dizer, dentro do nosso próprio coração.

(...)

Homem – aos viscosos laços do vício e da maldade que o prendem à Terra e às suas leis, assim o Homem há-de sublimá-lo até ao ponto de o assimilar a si mesmo, não como demónio, mas como poder anímico, criador de beleza e de força divinizadora. E isto exigirá vidas, muitas vidas ao longo duma persistente linha de aperfeiçoamento moral.

A queda do Homem não teve a finalidade de o perder irremediavelmente, mas de o forçar a uma actividade mais intensa e profícua no sentido de juntar ao seu esforço na senda evolutiva mais eficiência. Apressa, deste modo, a sua graduação para mais altas missões. Gozando e sofrendo, rindo e chorando, nós vamos aprendendo, porque são os contrastes entre a dor e o prazer, a tristeza e a alegria que nos mostrarão como são diferentes e qual o caminho a seguir.

É com o impacto do prazer e da alegria, com as suas impressões duradouras ou fugazes, que aprendemos a escolher o melhor, o que perdura, e rejeitar o efémero.

Desde que ao Homem foi dada a faculdade inestimável de ser juiz dos seus próprios actos colocou-se também à sua mão a possibilidade rara de escapar de tudo quanto é grotesco e, portanto, mau, de elevar-se a mais altas dignidades e poder.

O Homem caiu para se levantar de novo – e não para ficar caído eternamente.

Deus não cria para o Inferno da perdição, mas o Homem, sim!

Deus cria para a mais alta Perfeição; e o Homem, sempre enredado nos tredos laços da carne – que outra coisa não é que terra moldada em nova forma pelo espírito – cria para o Demónio, que não é uma pessoa mas um estado de imperfeição. Por isso o Homem, teimoso na prática do mal, há de mudar, quer queira, quer não, a natureza desse mal em Bem! E só o conseguirá ao longo de vidas e passando por tudo quanto fez passar aos outros, de harmonia com a divina Lei da Causa e do Efeito.

(...)

E tudo isto por via duma vileza sem par!

O que vai ser, agora, o futuro desta vítima da boa-fé e inexperiência? Nem se pode vislumbrar! Tão escuro se mostra o horizonte!

Entretanto, o traiçoeiro sedutor buscará novas presas. Na sua ignorância e maldade ele julga o mundo e as suas coisas por si próprio, medindo tudo e todos por si mesmo, pela sua própria medida. Buscará perder da sua pureza outras donzelas, muito convencido de que tem o direito indiscutível de colher todas as flores para depois as lançar no pestilento lodo das paixões vis. E por isso avança na sua louca e repugnante missão de carrasco. Semeia por onde passa as sementes da torpeza, que algum dia, em vidas futuras, lhe reservarão os seus frutos. O miserável renascerá mais tarde e trará, no alforge do seu Destino, todas estas e muitas outras culpas que a Igreja dominante chama Pecado Original. E então provará, até ao pormenor, todo o mal que brotou das suas loucuras!

E porque o mal teve a sua origem nos seus órgãos da vista, que lhe permitiriam ver a beleza para que a dignificasse, e, em vez disso, a poluiu, a sua punição começará nestes órgãos, que sofrerão deficiências. Verá mal e poderá mesmo nascer cego ou trazer graves deformações oculares, em harmonia com a gravidade dos seus delitos.

A este respeito a Bíblia conta-nos uma história muito interessante e que bem pode ilustrar esta dissertação. Vamos resumi-la:

O rei David viu, certo dia, do terraço do seu palácio, a formosa mulher de um dos seus soldados a tomar banho, descuidada e convicta de que ninguém a surpreenderia na sua nudez. E perdeu o uso da razão o glorioso monarca! Mandou buscar Bathseba, mulher de Urias, para o seu palácio, que depois fez saber ao rei que iria ser mãe. E David sente-se mal colocado, procurando sair da má posição do seguinte modo: dá ordem ao general que conduzia a guerra para que lhe mande apresentar Urias. Depois, tenta levar o soldado a sua casa. Porém, Urias não vai. O rei convida-o então para uma refeição e embriaga-o, mandando-o depois juntar-se a sua mulher, Bathseba. Mas Urias, mesmo embriagado como estava, não aceitou! Opôs-se à vontade do monarca e ficou à porta do palácio real. Então David resolve pela via que lhe pareceu mais fácil: remeteu Urias com uma carta ao comandante da tropa em guerra, mandando-lhe colocar o infeliz soldado na parte mais perigosa, à frente, para que fosse morto. E assim sucedeu! Urias foi varado pelas setas do inimigo, e David levou Bathseba para a sua companhia!

Por ter visto impudicamente, rebaixou o rei a mulher do seu servo e tirou a vida a este!

(...)

Assim diz o Senhor: "Eis que suscitarei da tua mesma casa o mal sobre ti, e tomarei tuas mulheres perante os teus olhos, e as darei a teu próximo, o qual se deitará com tuas mulheres perante este Sol. Porque tu o fizeste em oculto, mas eu farei este negócio perante todo o Israel e perante o sol"1.

Todos os delitos que forem cometidos por abuso dos olhos, serão castigados com limitações ou deficiências da vista, que podem ir até à perda total desses órgãos. Qual o preço do crime do rei David? Só porque viu, enlameou a honra e cortou o fio da vida, mandando matar, isto é, arranjando ainda mais um comparsa – Joab, o general do exército em guerra –, que também ficou culpado de assassínio por ordem do seu rei! Certamente que a cegueira foi bem merecida!

Mas, não será apenas com as deficiências da vista, com os distúrbios do aparelho genital para dificultar a sensibilidade que os fez trilhar o obscuro caminho, que ficará saldada a culpa ou culpas!

É forçoso que prove integralmente os efeitos do mal causado tão brutalmente e, por esse motivo, quando renascer mulher, terá que passar pela prova da sedução, do abandono. E desfiará as negras contas daquele mesmo rosário de amarguras que foi a vida das suas vítimas! Passará pelas mesmas humilhações, sentirá todo o peso da desgraça e só ao fim estará livre das suas culpas, porque só então saberá bem avaliar a responsabilidade de cada um dos seus actos, pois provou o gosto que o fado tem.

(...)

Assim como fizeres acharás – diz um velho rifão cheio de sabedoria. O ladrão sempre utiliza a vista para as suas investidas contra a propriedade alheia. Ele renascerá com limitações visuais que serão graduadas pela soma do mal causado.

A vista não foi dada aos seres para que fizessem mau uso dela. Portanto aprendamos a usar bem a vista, para que sejamos dignos de renascer com olhos perfeitos, visão pura.

(Resumo do texto publicado)

 

Francisco Marques Rodrigues

 

1 2 Sm, Cap. XI e XII. 

FONTE: http://revista-rosacruz.planetaclix.pt/tema/bibl/renasc4.htm


O Renascimento nas Escrituras Sagradas

Capítulo X

A Divina Lei da Causa e do Efeito

Ouvimos muitas vezes esta pergunta angustiosa:

"Porque se nasce para ser feliz ou infeliz?"

E depois vem o comentário:

"Se o CRIADOR é sumamente justo, porque cria assim tão brutalmente uns para a miséria, nos seus variadíssimos matizes, outros para a abastança e a felicidade nas suas múltiplas formas? E por fim, se dermos crédito ao que ensinam as religiões do hemisfério ocidental, ainda lança uns nas chamas eternas do Inferno, elevando outros à suprema ventura do Céu!"

(...)

DEUS fez-nos a todos para a mais alta elevação e ventura; nós é que nos desviamos dos seus preceitos e criamos as nossas próprias infelicidades e tristeza, com os nossos maus pensamentos, com a nossa maldade!

A felicidade e a infelicidade constituem um problema que poderemos resolver vivendo a doutrina ensinada por CRISTO. Vivida esta doutrina, nós encontraremos a chave do mistério que chamamos Destino, e podemos modificá-lo e até vencê-lo. Para isso nada adiantamos pregando mas vivendo, sentindo em nossos corações os ensinamentos do Mestre Divino. O que sai da boca pouco interessa; mas o que sai do coração puro é de grande valor.

(...)

Se queremos verdadeiramente ser felizes, temos de semear por toda a parte a felicidade; pois só contribuindo para a felicidade de outros seres nós preparamos a nossa própria felicidade. Se em redor de nós semeamos egoísmo, orgulho e maldade, impregnamos o próprio ambiente em que temos de viver dessa daninha essência do mal, que tornará pesado o nosso ambiente, e nos fará infelizes.

"Quem quer o bem, primeiro bom se faça"!

Assim como fizemos a outros em vidas passadas, assim outros nos farão na vida presente e nas futuras, até quando tivermos provado bem o gosto que o fado tem! É a Lei justa da Causa e do Efeito que está em nós mesmos e nos sujeita, quer queiramos, quer não.

(...)

Diz-se muitas vezes que duas pedras duras não fazem boa farinha, e quando se juntam no matrimónio duas almas assim, sempre prontas a puxar ao contrário do que melhor convém, aplica-se-lhes o mesmo prolóquio. São duas pedras duras! Não sabem transigir! Não harmonizam! Nada fazem para se desculparem e compreenderem e daí a sua luta constante e a sua grande infelicidade matrimonial tantas vezes reflectida desastrosamente na educação dos filhos!

Uns e outros, esposos e filhos, necessitavam desta dura experiência! Mas, bastante melhor seria se em vez de lutas houvesse paz! Isto indicaria uma lição estudada, uma prova feita, uma dificuldade vencida, uma página do livro do Destino completamente lavada do que ali fora escrito. Mas... raramente se pode cantar essa vitória! O que mais vezes sucede é chegar o fim duma vida cheia de lutas e de injustiças e vir a morte fechar o livro do Destino tal como foi escrito com os nossos pensamentos e actos, para servir noutra vida futura como lição a estudar e a aprender.

De vida em vida, por via de regra, se bem cumprimos os nossos deveres dentro do plano a que pertencemos, casando e reproduzindo a forma, nascemos com sexo diferente do que temos agora. Os que se recusaram a cumprir o sagrado preceito – crescei e multiplicai-vos –, voltarão no mesmo sexo para consumarem esse divino preceito que impulsiona ao matrimónio. E então deparamos com o seguinte arreliador panorama: os casados recolherão os frutos que semearam, amargos ou doces; os que fingindo santidade se escaparam ao sacramento do matrimónio buscarão realizá-lo, mas depararão com grandes dificuldades para o conseguirem, ou só o conseguem de modo contrário ao que sonharam e assim mesmo ainda muitas vezes se desfaz o desejado laço.

Temos, ainda, aqueles que fugiram ao casamento por egoísmo, contrários ao esforço tão natural e nobre de constituir um lar e uma família para com o produto do seu trabalho os sustentar e se enobrecer! Esses, receberão também o seu salário!

Existem outros ainda, que não se casaram mas se deram às habilidades atribuídas aos cucos! Desprezíveis "heróis" duma vil estirpe, eles receberão na sua medida, vendo outros cucos buscar os seus ninhos...

"Elas cá se fazem, e cá se pagam"!

O que foi mau esposo numa vida, quando voltar a renascer virá mulher, e o marido que vai ter será igual ao que ele foi na sua passada existência. Então carpirá a sua infelicidade e louvar-se-á pela sua bondade e por ser digna de melhor sorte! O mesmo sucederá àquela má esposa que não perdeu um momento para tornar infeliz o seu marido, pois renascerá homem e terá uma esposa exactamente como ela foi na passada existência! Só assim podemos provar o gosto que o fado tem! E de vida em vida mudar de atitudes.

Quantas vezes nos quedamos diante duma ideia que desejamos realizar, pensando no mau sucesso, temendo a responsabilidade! É uma vaga reminiscência do passado, dos resultados de actos mal sucedidos em vidas passadas! É o acordar da consciência! É, quando assim acontece, um bom sinal, pois já começamos a ouvir a voz da consciência, o que nos indica avanço na escala evolutiva. Assim, ouvindo essa voz silenciosa que nos previne contra o mal que nos pode vir se consumamos tal acto, é um excelente indício de avanço moral. Estamos aptos a modificar profundamente os nossos destinos, de modo a torná-los melhores, mais felizes.

De vida em vida temos de recolher exactamente o que semeámos, no mesmo estilo em que fizemos, nesse mesmo havemos de recolher. Tudo será desfiado até ao mais ínfimo pormenor!

Este mundo em que vivemos é enganoso, ilusório. Por isso mesmo, quando julgamos enganar os outros estamos a enganar-nos a nós mesmos! Temos, por isso mesmo, muito mais a lucrar em sermos justos e correctos, do que em sermos injustos e incorrectos.

Falámos particularmente nos insucessos matrimoniais por serem eles os que mais palpitantemente interessam a este capítulo, e que melhor elucida a respeito da conduta a tomar nesta vida. Se os que pensam em casar-se tratassem primeiramente de se prepararem para uma justa e mútua compreensão, o matrimónio seria bem mais feliz!

Se os noivos fossem para o matrimónio pensando mais na alegria e felicidade resultantes da união de duas almas que se amam profundamente e se desejam ajudar constantemente, sempre prontos para a tolerância e para o mais perfeito ajuste de opiniões e conveniências, o matrimónio seria perfeito!

Só quando ambos se compreenderem perfeitamente poderão ser inteiramente felizes e desta felicidade que se continuará nas vidas futuras resultarão famílias perfeitas, e assim se contribuirá para maior perfeição e harmonia na sociedade humana.

Não citaremos outros factos que determinam a nossa felicidade ou infelicidade, pois do exposto neste artigo e nos anteriores se deixa bem esclarecido o problema da felicidade e das desigualdades humanas. Tudo quanto dissemos se destina à melhoria do comportamento dos seres humanos. Sabemos quão difícil, por bastante incompreensível, é a aceitação da LEI DO RENASCIMENTO. Não temos a veleidade risível de querer impor a aceitação dessa Lei, mas tão somente chamar para ela a atenção dos nossos numerosos leitores, certos de que muitos compreenderão a lógica origem dos nossos males e não culparão DEUS de nos fazer infelizes!

"Quem faz as coisas viverá nelas".

"O que tu semeias, isso mesmo hás-de recolher algum dia"!

Estas e muitas outras sentenças andam na voz do povo; e diz-se que a voz do povo é a voz de DEUS, querendo com isto afirmar que nas sentenças populares anda muita verdade. E nós assim o acreditamos!

As religiões do Ocidente não explicam ao povo a LEI DO RENASCIMENTO, tantas vezes mencionada nas Escrituras Sagradas, e até sofismadamente a negam, mas procedendo assim cometem um grave erro e obstaculizam a evolução da Humanidade!

(...)

Se vivermos em harmonia com os ensinamentos de CRISTO, nós estaremos vencendo a passos largos o penoso caminho da evolução, que teremos de percorrer, a bem ou a mal, porque a finalidade da nossa existência neste mundo é graduar-nos para mais sublimes condições.

(Resumo do texto publicado)

 

Francisco Marques Rodrigues

 

FONTE: http://revista-rosacruz.planetaclix.pt/tema/bibl/renasc5.htm

A Reencarnação na Bíblia

Palavras-chave : Palingenesia – Reencarnação – Ressurreição

Introdução

A religião grega é, à primeira vista, um conjunto incoerente de fábulas e grosseiras ficções. Mas seria possível que uma religião com estas características tivesse dado origem a obras de arte que revelam exactamente o desejo de libertar o espírito de tudo o que os prende à terra? O conflito é evidente, e só pode ser resolvido por um exame atento do que foi a religião grega. Os próprios gregos sentiram a necessidade de uma explicação mais profunda. E uma das que obteve maior número de adeptos foi a que via, nos mitos divinos, simples alegorias com a finalidade de forjar a mente e o corpo daquela gente.

Na Grécia lendária, ao contrário do que vemos acontecer nos países do Oriente, o interesse pela reincarnação ficou limitado aos círculos iniciáticos. Só o identificamos por meio de alguns mitos como, por exemplo, o de Perséfone (onde se identifica o corpo – Perséfone – filho de Deméter – o espírito – que voltava periodicamente à Terra, renascia no mundo físico e tinha continuidade vital), ou o de Castor e Polux 1 .

É possível que, nos mistérios de Elêusis, se ministrassem aos iniciados uma doutrina que incluísse, sem imagens míticas, os grandes princípios da sabedoria oculta, que consistiam na unidade de Deus, na imortalidade do espírito e na lei da reincarnação associada à de causa e efeito 2 . Mas na Época helénica torna-se um assunto de muitas obras de reputados autores. Platão defende a tese da passagem do espírito pelo Hades, donde volta a reincarnar. No Fédon, defende a ideia da imortalidade 3 ; e no Fedro expõe a sua teoria da evolução do espírito 4 . Não é exagero ver no pensamento platónico o prenúncio da Civitate Dei de S. Agostinho.

E, no que diz respeito à Bíblia Hebraica, o Antigo Testamento, admite-se, de modo geral, a inexistência de qualquer afirmação que permita reconhecer, nos textos, a esperança de vida depois da morte. Diz-se até que, neles, o mais evidente é a confiança no poder de Deus sobre a morte e não o conceito de alguma coisa imortal que o homem tenha. É claro que a leitura atenta dificilmente apoia tal ponto de vista. Trata-se de uma interpretação literal. Baseia-se numa leitura "fundamentalista", que parte do princípio de que a Bíblia, sendo a palavra de Deus, inspirada e isenta de erro, deve ser lida e interpretada literalmente em todos os seus pormenores. Por interpretação literal entende-se uma interpretação primária, literalista, isto é, excluindo qualquer esforço de compreensão que tenha que ver com o seu crescimento histórico e o seu desenvolvimento. Bastará citar o episódio descrito em 1 Sm 28, em que a médium de Endor invocou o espírito de Samuel a pedido de Saúl, para se provar que o problema da sobrevivência do espírito não era assunto de todo indiferente aos autores veterotestamentários, ainda que o não refiram explicitamente. A Escritura propõe-se revelar verdades intelectuais, e não tanto repetir conceitos que eram, no tempo, do conhecimento geral, como é o caso da reincarnação – é preciso não esquecer que a doutrina da reincarnação só foi rejeitada pela Igreja no ano de 553, quando se realizou o II Concílio de Constantinopla. E, além disso, havia no judaísmo um ensinamento, que apenas se transmitia oralmente e era destinado a um público restrito, com a proibição de o divulgar a estranhos. Ainda que o Antigo Testamento pareça, de facto, não estar disposto a abandonar a ideia de que os actos e palavras de Javé são manifestações que se realizam diante dos olhos de toda a gente, em Am 3, 7-8 contradiz-se esta ideia da revelação pública ao afirmar que o Senhor "não fará coisa alguma sem "primeiro" revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas". Há, na realidade, diversos textos que deixam entrever a crença de que a morte não era para sempre, que o homem voltava à terra, que Deus o retirava do Sheol e, mais do que isso, que o Senhor "amava uns antes de nascerem e repudiava outros", quando um dos dogmas fundamentais do judaísmo era o do livre arbítrio, não podendo Deus, por isso, amar nem rejeitar sem motivos precisos, consequentes ao comportamento da pessoa.

A Reencarnação no Novo Testamento

O estudo dos livros bíblicos tem seguido caminhos diversos e desconexos, de acordo com o método e a perspectiva da análise: crítica textual, crítica das fontes, teologia bíblica, etc. Isto exige que se faça um estudo que relacione a sua formação e a redacção literária de modo que se compreendam melhor alguns problemas mal apresentados ou erradamente resolvidos, no passado, com o recurso unicamente ao testemunho das versões e interpretações disponíveis. Para entender bem a mensagem evangélica, é preciso que o estudo dos textos se faça a partir da sua génese ou história: qual é a origem do texto e que história lhe está subjacente, quais as influências que sofreu de literaturas afins e traduções, etc. É o que vamos fazer, recolhendo dois ou três textos significativos para os estudar numa perspectiva "diacrónica" 5 .

Devido a razões de objectividade, evitaremos qualquer juízo pessoal em relação aos dados, argumentos e conclusões da pesquisa hodierna. A perspectiva geral e a selecção do material, no entanto, bem como as opiniões discutidas, não deixam de reflectir a visão pessoal, com o propósito sério de ultrapassar a cristalização em que caiu o cânon, o texto, as versões e as linhas mestras do cristianismo exotérico.

Em muitos passos, a referência à reencarnação está implícita na mensagem evangélica, à semelhança do que vimos acontecer no A.T.. Não se pode compreender a exortação "sede perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito" 6 se não tivermos em mente o conceito de reencarnação, tão diminuto é o progresso alcançado por cada um de nós em cada existência física, mesmo nos dias de hoje em que a esperança de vida é muito maior do que nos tempos bíblicos. Noutros fala-se claramente do assunto. É clássico o exemplo de Elias, citado por Max Heindel: "Elias já veio e não o conheceram...e os discípulos compreenderam então que Jesus lhes tinha falado de João Baptista" 7 . Em Mat., 14, 1, temos outro exemplo. Lemos: "...Herodes disse: Este homem é João Batista que ressuscitou. Por isso é que ele tem poder para fazer milagres". Mas há casos em que a referência à reencarnação ficou ocultada pela tradução. É preciso, então, refazer a história textual, partindo das edições modernas até chegar aos textos mais antigos e, na medida do possível, reconstruir o sentido original dos autores bíblicos.

Certa vez, disse Jesus aos discípulos: "asseguro-vos que, no mundo que há-de vir…" ou "em verdade vos digo que vós, que me seguistes, quando, na regeneração..." (Mt 19, 28). Mas, no texto grego escreve-se: "εν τη παλιγγενεσία" (en té palingenesia). A palavra παλιγγενεσία (palingenesia), composta pelo prefixo "pálin" (de novo), e "génesis" (origem, nascimento), significa simplesmente "novo nascimento" ou, então, "renascimento". E, como o artigo τη (te), precede a palavra "palingenesia", torna-se claro que o autor se refere a uma reencarnação específica e não a qualquer outra das muitas que são possíveis. Como a cristificação ocorre depois de o espírito se graduar na Escola da Vida, no fim do presente dia de manifestação, este versículo deveria ler-se, pois, "...asseguro-vos que, na reencarnação final...". É a esta fase da evolução, no ponto da cristificação do espírito, a que S. Paulo se refere em Heb. 7, 25, quando fala na "salvação eterna", que se alcança quando formos como os anjos e já não pudermos voltar a morrer, de acordo com Lc. 20, 36.

Lemos noutro passo, agora em Tg. 3, 6: "pois a língua é como o fogo... e pode queimar a vida toda..." ou "inflama o curso da natureza... ". Ora, no texto grego lê-se: τροχον της γενεσεως (Trohon tes geneseos). "Trohon" é o acusativo de "roda", que tanto pode ser a roda de um carro como o antigo instrumento de suplício; "geneseos" é o genitivo de "génesis", que significa fonte, geração, nascimento, existência, ser. S. Tiago refere-se à língua como órgão da fala, capaz de expressar a natureza íntima do ser humano pela fala, o som. É esta natureza que nos leva à corrupção. Acende os fogos mais devastadores, capazes de incendiar o corpo emocional e desencadear a acção que sujeita o espírito ao ciclo contínuo de mortes e renascimentos, pelo menos enquanto "desejar encher o estômago com as bolotas que os porcos comiam" (Lc. 15, 16). Chegará, todavia, o tempo em que, já amadurecido, "cai em si e pensa" (Lc., 15, 17) para depois compreender que, afinal, é uma realidade distinta do corpo – o seu instrumento físico.

Quando, nas traduções correntes de Tt. 3, 5 lemos: "...purificou-nos com a água que faz renascer..." ou "...salvou-nos pela lavagem da regeneração", perdemos a verdadeira mensagem da carta de S. Paulo a Tito. No texto grego, está escrito: "λουτρον παλιγγενεσίας" (loutrou palingenesia). Ora, λουτρον (loutrou, genitivo de λουτρόν) não significa "lavar" mas o "local onde se toma banho (limpa ou purifica). Vamos encontrar o mesmo problema noutra carta, em Ef. 5, 26, em que S. Paulo, ao falar da vida dos casados e referindo-se à igreja, usa a mesma palavra λουτρον: "...fez isto para que ela fosse consagrada e purificada pela água... " ou "...purificando-a com a lavagem da água... ". Parece claro que, nestes dois versículos, as expressões utilizadas não traduzem a palavra grega loutrou, o lugar onde o espírito se purifica e regenera – a Terra – ao longo de sucessivas encarnações, em veículos de crescente perfeição, em perfeita sintonia com a evolução e com os fenómenos da Natureza.

A Ressurreição

Todos se recordam da pergunta que os saduceus (os materialistas dos tempos bíblicos), fizeram a Jesus acerca da ressurreição. Perguntaram eles a quem pertenceria, depois da ressurreição, uma mulher sucessivamente casada com sete irmãos e sem descendência (Mc. 12, 18-25). A pergunta foi inteligente, mas a resposta sobejamente satisfatória. Disse Jesus: "Porventura não errais vós... porquanto, quando ressuscitarem dos mortos, nem casarão nem se darão em casamento" ou ainda "...quando os mortos tornarem a viver... " (Mc. 12, 25).

Marcos, ao referir a inutilidade do casamento depois da ressurreição, escreve αναστωσιν(anastosin – ressuscitar, verbo, na voz activa, aoristo, na terceira pessoa do plural), mas, no versículo seguinte, usa o vocábulo εγειρονται (egeirontai – erguer, levantar; é um verbo, na voz passiva, na terceira pessoa do plural). A palavra egeirontai, do verbo "egeiro" – acordar, despertar, levantar – usa-se, como verbo transitivo, para pessoas, nos casos em que elas são despertadas do sono, da inconsciência ou da letargia, quando são estimuladas para a acção ou revolta, ou ainda para aqueles que realizam essas acções. Como substantivo, significa despertar ou restabelecimento. Não se pode deduzir da palavra, quer no sentido verbal quer no substantivado, o significado de "ressurreição" do corpo.

Por outro lado, a palavra anastosin, desde Ésquilo e Heródoto, tem o significado intransitivo de "levantar-se" ou "erguer-se". O estudo pormenorizado revela que anistimi-anastosin se refere mais a uma experiência escatológica, ao passo que egerontai expressa, por assim dizer, aquilo que acontece no âmbito da nossa experiência enquanto humanos. O versículo 25 parece referir-se à derradeira ressurreição, quando alcançamos a "salvação eterna" no dizer de S. Paulo, enquanto que o 26 faz alusão ao ciclo de renascimentos do espírito.

Deve-se ter em conta que o Novo Testamento não faz referência à "ressurreição do corpo", mas sim, e apenas, à "ressurreição dos mortos". Apesar das tentativas de Lucas no sentido de argumentar a favor da ressurreição do corpo físico de Jesus, o que apareceu sempre foi um soma doxes, corpo de glória, ou um soma pneumatikon, corpo espiritual. Paulo tem uma ideia muito clara acerca deste assunto. Não se refere, por exemplo, à experiência que teve com Jesus, na estrada de Damasco, nos mesmos termos em que se refere ao encontro com Pedro em Antioquia. Não disse ter visto o "ressuscitado". Fala de Jesus como sendo "o Filho de Deus" (Gl. 1, 15) e faz a pergunta "não vi a Jesus?..." (1 Cor 9, 1). Para ele, a ressurreição não tem que ser uma transformação do corpo físico, mas sim a sua substituição por um outro corpo. Significa isto que a contemplação visual do Senhor, depois da ressurreição, se ficou a dever a uma disposição psíquica de alguns discípulos. A ideia da ressurreição do corpo físico é muito posterior ao tempo dos Apóstolos. Há, no Antigo Testamento, uma estrofe do livro de Job, em Jb. 19, 26, que se julga insinuar a ideia da ressurreição "da carne". A tradução de João Ferreira de Almeida, que segue o texto massorético, diz: "depois de consumida a minha pele, mas ainda em minha carne, verei a Deus", mostra-se contraditória e errada. Na realidade, trata-se apenas de um lampejo de esperança, que nada tem que ver com a ideia de imortalidade do espírito, e deve ser distinguido da ideia judaico-cristã da ressurreição da carne no dia do julgamento. Job usa a expressão "em minha carne" para manifestar a sua convicção de ver a Deus numa forma concreta de percepção, de sentimento, de pensamento, e de volição, mas numa experiência fora da carne, isto é, como espírito desencarnado.

Os sujeitos da "ressurreição" são pessoas que se transformam, externa e internamente, naquilo que se pode chamar processo de cristificação, através do enriquecimento permitido pelas vidas sucessivas. A ressurreição pode, então, ser entendida de dois modos diferentes mas complementares: a do corpo, que se refere ao renascimento físico, e a do espírito, que se relaciona com a libertação da roda dos nascimentos e mortes sucessivas – a que Paulo chama "salvação eterna" na sua carta aos Hebreus (Hb. 7, 25) – quando já não for possível morrer mais vezes, como se afirma em Lc. 20, 36.

Cristianismo Latino Ocidental

A igreja ocidental, preocupada sobretudo com a teologia prática e com a sua organização jurídica, criou mecanismos de interpretação que ocultam o sentido do texto, mesmo quando se fala de hermenêutica. O estabelecimento do cânon da Escritura e da regra de fé, a regula fidei, expressa no credo trinitário, a preocupação do reforço da autoridade dos bispos, encarregados de velar pela ortodoxia da doutrina, levaram inevitavelmente ao desenvolvimento do dogma, relegando para segundo plano os problemas exegéticos e hermenêuticos.

Ambrósio (304-397) dava especial interesse à interpretação alegórica, que releva o sentido oculto da Bíblia. Jerónimo (340-420), por seu lado, valorizou a interpretação literal e histórica. E Agostinho de Hipona (354-430) considerava que, tanto o sentido literal como o espiritual, eram igualmente válidos (signum e res), sendo a regula fidei a regular qual dos sentidos, literal ou figurativo, prevalecia em cada caso. Este recurso à regra da fé suscitou o problema de saber qual a relação exacta entre a hermenêutica e o dogma. O desenvolvimento autónomo da hermenêutica ficou, por isso, praticamente interdito.

Diante de tudo o que parece evidente, e à medida que se confirma a existência de uma realidade anímica consciente extra corpórea e distinta da cerebral, já não se pode negar que o homem inicia agora uma profunda exploração do vasto e desconhecido universo do seu próprio ser. E também não se pode sucumbir por mais tempo à miragem de formulações dogmáticas. O que é preciso é estudar as coisas do espírito abandonando a falsa ideia de que a realidade é dupla e que se pode separar em dois campos: o da matéria e o do espírito. A realidade é una: ciência e religião não têm objectivos materiais diferentes. Elas são, isso sim, pontos de vista diferentes da mesma realidade.

Francisco Coelho

 

Notas

1 Max Heindel, Ensinamentos de um Iniciado, F.R.P., Lxª, 2001, Cap. 19.
2 Javier Parra, Mito y Realidade Sobre Otras Vidas, Ed. Casset, Madrid, 1992, pp.33-34.
3 Platão, Fédon, 75, 102, Livraria Minerva, Coimbra, pp 69 e ss e 109 e ss.
4 Id., Fedro, 249 e ss, Guimarães Editores, Lisboa, 1994, p. 64.
5 Dia-cronos: estudo do texto "ao longo do tempo".
6 Mt. 5, 48.
7 Max Heindel, Conceito Rosacruz do Cosmo, F.R.P., 3ª ed., 1998, pp. 135, 319. Cf. Mt 17, 12-13.


FONTE: http://revista-rosacruz.planetaclix.pt/tema/bibl/biblia.htm                                                                       

 


 

 

 

 

 

 

 

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